O relato de Carlitos Cadangue, jornalista e correspondente do Grupo Soico na província de Manica, segundo o qual os indivíduos que atentaram contra a sua vida, no dia 4 de Fevereiro de 2026, trajavam uniformes da Polícia da República de Moçambique (PRM), constitui um facto de extrema gravidade. Infelizmente, trata-se de um episódio que já não surpreende no contexto moçambicano, tendo em conta a tendência crescente de casos em que agentes da Polícia são associados a actos de violência e criminalidade.
Ainda que se admita a possibilidade de indivíduos mal-intencionados recorrerem ao uso de fardamento policial para dissimular as suas acções, a natureza do ataque, o perfil do jornalista e a relevância do trabalho que vinha desenvolvendo empurram a análise para a hipótese de um atentado motivado pelo incómodo que a sua actividade jornalística causou a interesses instalados, particularmente no sector da mineração. Este contexto reforça a percepção da existência de esquadrões da morte em Moçambique, grupos que operam sob a sombra do sector securitário do Estado, com alvos seleccionados entre opositores políticos do regime, jornalistas, activistas e críticos. A existência destes grupos foi inequivocamente demonstrada durante o julgamento do caso do assassinato do activista Anastácio Matavel, no qual se provou que os executores pertenciam ao Grupo de Operações Especiais da PRM.
Para além de constituir uma grave violação do direito à vida e da liberdade de imprensa, a actuação dos esquadrões da morte representa um ataque directo aos fundamentos da democracia moçambicana. Quando agentes armados, associados ou protegidos pelo aparelho do Estado, recorrem à violência para silenciar vozes críticas, instala-se um regime de medo que destrói a confiança nas instituições públicas e anula o exercício das liberdades fundamentais.

